sexta-feira, 27 de março de 2020

Da pandemia


Ainda trago comigo a certeza de nosso encontro um dia, quando então vou te falar do tempo de agora.
Um tempo que chegou tão de repente. Em um dia eu estava às voltas com os desassossegos da inquieta vida sozinha. Com os dengos da Neta. Com as alegres amizades de agora. No outro amanheci parada.
Não eu, mas o mundo.
Deste verão de 20 certamente falaremos do “coronavirus”. Que esta fechando aeroportos, isolando pessoas, e até mesmo pondo em quarentena países inteiros. Parece ser uma pandemia, mas que me trás à memória a epidemia de gripe que te levou em 2013.
No país estamos vivendo dias terríveis. Onde se debate se salvamos a vida ou a economia. Os antigos e cansativos embates entre esquerda e direita reverberam por todos os cantos. E este homem que assumiu a presidência parece estar estacionado nos anos 50 do século passado e com discursos rasos e ofensivos a toda sorte de pessoas pensa ser um enviado de Deus para exterminar comunistas. Deprimente e revoltante são palavras que me surgem para descrevê-lo. E seu ódio pode levar a morte centenas de pessoas. Sinto me completamente insegura quanto ao futuro.
Da Filha te posso dizer que seguimos orgulhosos de nosso trabalho feito na sua formação. É mulher forte, que ama o que faz e que acredita na importância de seu trabalho. É incansável, segue sempre estabelecendo novas metas. Então justifica e honra todas as lagrimas que derramaste por ela.
Mas meu coração de mãe se aperta. Ela vai ser soldado na frente da batalha contra essa doença. E eu que há muito não te pedia nada, peço que olhes por ela mais que nunca. Esteja com ela sempre, já que eu estarei isolada com a Neta.
Como tudo tem um lado positivo, esta vida cancelada me trouxe o convívio estreito com a Neta e a Mãe.  Ando as voltas com a rotina de cuidados que tem me trazido a memoria os nossos tempos criando a filha. A Neta torna estes tempos nebulosos mais leves. E a mãe em suas ladainhas me trás o consolo e a força para passar os dias.
Em nosso isolamento percebo estar segura por duas pontas. À Neta como promessa de futuro e à Mãe em sua fé inabalável de que nada nos ocorrerá.
E como Anne Frank encerrada em seu esconderijo, julgo estar segura aqui com elas.
Por agora é o que quero dizer desta vida suspensa.