segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Da outra avó


E a outra avó morreu.
Ela não partiu num de repente. 
Ela se foi aos poucos, como uma vela consumida pela chama da doença.
Não sei se usou os seus últimos dias para se despedir dos seus.
Talvez pressentindo que o final se aproximava foi silenciando.
A alegria e a vaidade de que sempre se revestia foi deixando de lado.
E da pequena mulher de personalidade forte, ficou o ensinamento que devemos nos amar sempre primeiro, para depois amar aos que nos rodeiam. Esse sempre é amor de melhor qualidade e intensidade, pois é amor que transborda cheio de autoestima.
Como não sei entender os mistérios do sofrimento, vejo que a cada perda vou ficando mais forte.
Quero estar aqui o mais que puder, para falar para a Neta destes que lhe sorriem nos porta retratos.
De toda forma sigo minha viagem agora mais determinada que ela seja longa, saudável e alegre.
E sei será preciso levar comigo essas bagagens cheias de ausências e saudades.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Um poema meu


Ah! Mulher que pensas ter maturidade.
O amor é para ti ainda um jogo silente,
Recua com dignidade.
Protege-te deste terremoto estridente.
Ainda precisas aprender
que não há lugar para o embaraço.
É na dança sem delicadeza dos corpos
que reside a ternura da mulher exultante.

Ah! Menina insegura e tola.
Não te punas no choro,
pois não há culpa no ignorado.
Foge para longe da tua mocidade,
da segurança do amor juvenil idealizado.
Aprende enfim que as dores e perdas,
é que dão tempero ao amor maduro
Que mesmo quando conquistado,
nem sempre é seguro.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Das mulheres ainda


Ando por esses dias, acompanhada das leituras de Marina Colasanti.
Por ser mulher desse meu tempo de agora me identifico sobremaneira com seus escritos.
Em seu poema: ÀS SEIS DA TARDE, nos fala das mulheres “do lar”, que viviam a dicotomia de uma vida aparentemente perfeita e um vazio existencial.
Apesar do conforto oferecido pelos maridos e a saúde de seus filhos, nada lhes dava significação. E Marina nos declama:

Mas então ela compara esse desalento de antes, com as lutas das mulheres de agora.
O correr das horas atropelam as “mães-esposas-profissionais”, lhes conferindo um distanciamento de seus sonhos, e uma coragem que nem sempre são delas, na busca da sobrevivência.
E gora vivem a dicotomia da coragem cotidiana e a fragilidade de se reconhecerem sempre na busca de algo que lhes de identidade, para além dos rótulos que ancestralmente lhe são impostos.


E agora penso... na mãe ... em mim... na filha ... na neta... e tantas outras.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Das mulheres


Existe uma pressão que nos leva a buscar a eterna juventude.
Este fato atinge mais firmemente às mulheres da minha geração.
Sentem-se jovens e negam o quanto podem o passar dos anos.
São horas infinitas gastas nos procedimentos, tratamentos e sessões em clinicas de estética.
Padronizam seus rostos sem marcas, seus lábios de sorrisos sem naturalidade e suas sobrancelhas milimetricamente desenhadas.
Morreremos todas de peles alvas e lisas, de peeling e bisturi.
Nas conversas com as amigas este é tema recorrente. 
E eu que tenho em mim estes pensamentos de que sou outra pessoa renascida, fico a pensar.
O corpo que me molda não representa o espírito que me preenche.
Mas ainda assim reluto, tenho medo de perder minha identidade.
Então Marina Colasanti me representa tanto em seus versos, que mais não posso dizer:

ROTA DE COLISÃO

De quem é esta pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
dentro a polpa
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.

domingo, 4 de agosto de 2019

Da reflexão

No tempo de agora os dias são preenchidos pela vida que restou.
Pelos livros tatuados com minhas anotações.
Pelas vozes afinadas dos cantores românticos que me acompanham.
Pelas planilhas financeiras no trabalho. nas semanas que correm ligeiras para o fim do ano.
Pelos dengos da Neta, nos sábados alegres.
Pelos domingos quase sempre lentos.
Vez ou outra, encontro quem possa melhor traduzir estas presenças cheias de tanta ausência.


Reflexivo
O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeus-se.