Encontrei na internet uma
entrevista de Isabel Allende à BBC em 2018, que me impulsiona a escrever hoje.
Justo o dia que queria esquecer, mas que sempre lembrarei.
Era dia frio e ensolarado como é o
de hoje, e nesses dias tão iguais separados por 7 anos, lembro a mulher que eu
era e reflito sobre a que sou agora.
Faces de uma mesma moeda, mas tão
distantes como os anos que as separam. Ou talvez as duas sempre tenham existido
simultaneamente, cada uma silenciosa esperando sua hora de protagonizar minha
história.
Na entrevista Isabel relembra o
que sua mãe lhe disse a respeito da perda de sua filha:
“Minha mãe me disse "nunca mais vai te
acontecer algo comparável, você já passou pelo inferno, então o resto da sua
vida será fácil"”.
Aquele dia me marcou para sempre,
esta tatuado em minha alma, como o dia mais frio, como o dia do vazio. Foi dia
de morte, mas só hoje percebo também foi dia de vida. São Desses que
marcam como o nascimento de um filho.
Depois de passar pelos tortuosos
dias carregados de culpas, saudades, carências e muita autopiedade, minha segunda eu nasceu.
Trago ainda a saudade, trago
ainda o amor sublimado, mas já não me pesam, minha nova eu é bem mais leve. Mostra-me todos os dias que quase
não tenho controle sobre os fatos de minha vida. Segundo Allende os
eventos mais importantes de nossa vida acontecem apesar de nós mesmo, são decididos
por destino ou karma, sem que possamos fazer nada. Ela conclui “Simplesmente vivi o que a vida me ofereceu”.
Ainda sofro pelas mazelas deste
mundo pandêmico e distrófico. Mas há em mim uma vontade intima e maior que a cada
manha me impulsiona a viver intensamente. Chorar os choros de lavar a alma, mas
de rir os risos para enfeitá-la.
Então nesse dia frio, mas
ensolarado eu apenas viverei o melhor que eu puder.