Voltando de Buenos Aires escrevo
para fixar na memória as coisas que vi e as sensações que senti.
As folhas amareladas das árvores anunciam
o outono, ainda que o calor do verão permaneça presente nas tardes ensolaradas.
Os cheiros são intensos. Em cada
esquina se encontra um café. Lugares cheios de história que exalam um aroma forte e indeterminado. Não sei se do café, se dos diversos chás ou da madeira
dos móveis antigos. Alguns estendem suas mesas e cadeiras pelas calçadas com a
firme intenção de cativar o transeunte a se deter para um "cortado"
ou um "doble".
No interior o convite é para degustar o café acompanhado de uma "media luna". O quê me faz pensar na companhia de algum livro de paginas amareladas. Talvez poesias de Neruda ou os loucos textos de Garcia Marques.
No interior o convite é para degustar o café acompanhado de uma "media luna". O quê me faz pensar na companhia de algum livro de paginas amareladas. Talvez poesias de Neruda ou os loucos textos de Garcia Marques.
A Avenida de Maio reina soberana
nessa cidade de ruas largas. Nela mergulho no passado a cada passo. Seu encanto
é indiscutível ao cruzar com a moderna 9 de Julio. São dois mundos que se
enfrentam e se respeitam.
Na de Maio entro no Café Tortoni,
lugar que me aprisiona. Me deixa suspensa, e para sempre me lembrarei do gosto amargo
do café, da cor intensa da madeira avermelhada de seus móveis e dos espelhos e
lustres, multiplicando a atmosfera de nostalgia.
Sentada à mesa fico a pensar no
poema que me alerta na entrada para o que vou encontrar. E eu que não fumo,
sinto ganas de tragar um cubano e de soprar a fumaça nesse momento irreal.
E desse meu tempo de viajar,
essas são algumas das coisas que quero lembrar nos dias finais de minha vida.
…”La calle me llama
y a la calle iré...
Yo tengo una pena
de tan mal jaez
que ni tu ni nadie
puede comprender,
y en medio de la calle
¡me siento tan bien!
¿Qué cuál es mi pena?
¡Ni yo sé cuál es!
Pero ella me obliga
a irme, a correr...”
y a la calle iré...
Yo tengo una pena
de tan mal jaez
que ni tu ni nadie
puede comprender,
y en medio de la calle
¡me siento tan bien!
¿Qué cuál es mi pena?
¡Ni yo sé cuál es!
Pero ella me obliga
a irme, a correr...”
Baldomero Fernández
Moreno
