terça-feira, 23 de abril de 2019

Um café em Buenos Aires


Voltando de Buenos Aires escrevo para fixar na memória as coisas que vi e as sensações que senti.
As folhas amareladas das árvores anunciam o outono, ainda que o calor do verão permaneça presente nas tardes ensolaradas.
Os cheiros são intensos. Em cada esquina se encontra um café. Lugares cheios de história que exalam um aroma forte e indeterminado. Não sei se do café, se dos diversos chás ou da madeira dos móveis antigos. Alguns estendem suas mesas e cadeiras pelas calçadas com a firme intenção de cativar o transeunte a se deter para um "cortado" ou um "doble".
No interior o convite é para degustar o café acompanhado de uma "media luna". O quê me faz pensar na companhia de algum livro de paginas amareladas. Talvez poesias de Neruda ou os loucos textos de Garcia Marques.
A Avenida de Maio reina soberana nessa cidade de ruas largas. Nela mergulho no passado a cada passo. Seu encanto é indiscutível ao cruzar com a moderna 9 de Julio. São dois mundos que se enfrentam e se respeitam.
Na de Maio entro no Café Tortoni, lugar que me aprisiona. Me deixa suspensa, e para sempre me lembrarei do gosto amargo do café, da cor intensa da madeira avermelhada de seus móveis e dos espelhos e lustres, multiplicando a atmosfera de nostalgia.
Sentada à mesa fico a pensar no poema que me alerta na entrada para o que vou encontrar. E eu que não fumo, sinto ganas de tragar um cubano e de soprar a fumaça nesse momento irreal.
E desse meu tempo de viajar, essas são algumas das coisas que quero lembrar nos dias finais de minha vida.

…”La calle me llama
y a la calle iré...
Yo tengo una pena
de tan mal jaez

que ni tu ni nadie
puede comprender,
y en medio de la calle
¡me siento tan bien!

¿Qué cuál es mi pena?
¡Ni yo sé cuál es!
Pero ella me obliga
a irme, a correr...”

Baldomero Fernández Moreno
 


segunda-feira, 8 de abril de 2019

Tempo de reconstruir


Como um personagem de Gabriel Garcia Marques, ando reformando a casa obsessivamente.
Pouco ou quase nada resta da antiga morada. Eliminei muitos moveis, destruí papeis, me desfiz de objetos. Comprei coisas novas, pintei as paredes de outras cores.
Dessa forma dei em organizar e limpar todos os cantos da casa. Trato de criar um novo lugar para chamar de lar novamente.
Nesse tempo que é só meu, de solidão produtiva, as ausências já não causam desconforto.
Com sofreguidão ando a remexer gavetas de lembranças.
Mas estas se tornaram minhas amigas, não mais me machucam. Ao contrário, a cada foto ou cartão que encontro, sou tomada de uma tal alegria e contentamento pelas histórias de outros tempos que eu mesma me estranho.

E então faço colagens dos recortes da memória, tentando sintetizar o que tanto eu vivi com as silenciosas imagens.