quinta-feira, 8 de outubro de 2020

APENAS UM MOMENTO

 

- Vou pegar um café. Quer um?

Convida.

- Não obrigada! Já esta tarde para isso.

Ela fala olhando o céu de por do sol.

- Mas você costumava tomar até antes de dormir.

- Foi há muito tempo. Agora sofro das insônias.

....

- Quantos anos se passaram?

Ela indaga quebrando o silêncio.

- Para mim uma eternidade.

- E quanto tempo é necessário para que se passe uma eternidade?

- Não sei...

Ele reflete por um segundo.

- Para mim tudo é um eterno presente... Diga-me você.

- Agora me pegaste. O eterno não tem fim, meu tempo sim.

- Mas teu tempo não acabou!

- Não?... Então como estamos aqui?

Ela olha novamente o céu vermelho.

- Não sabes mesmo dos anos que se passaram?

Ele acena com a cabeça, sem saber responder.

- Foi o tempo de ver a maturidade da filha. O tempo de ver nascer e crescer a neta. De tê-la nos braços e agora ser amparada por ela.

- Muitos anos então?

Sorrindo ela ajeita o vestido.

- Eu sabia que virias hoje, por isso me arrumei.

- Continuas tão linda como antes!

Num repente ele se levanta.

- Tenho de ir.

- Eu sei...

......

- Um café com a minha vovozinha... tudo de bom!

Diz, sentando ao lado da mulher que absorta olha o céu de fim de tarde.

- Vovó para quê são esses olhos de segredo?

- Para te ver melhor minha netinha...

 

Outubro/2020

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Dos dias de isolamento

Nesse ano, que parece não existiu, me esgotei.
Sinto que ele é fruto de um sonho ou pesadelo coletivo.
Sinto o cansaço da viagem dos meses.
Sinto o peso de escolhas erradas.
Sinto a angustia dos medos não superados.
Nesse tempo tão diferente de agora os sentimentos me invadem. Quero começar algo novo e que seja bom e verdadeiro. Estou agastada com a vida virtual e com as relações on-line.
Sinto falta da vida real.
Sinto falta...

Passados cinco meses de isolamentos e insegurança há no ar gelado desse agosto uma promessa de esperança, ao menos em mim.
Como viajante que vai chegando perto do destino, me alegro.
Que venha setembro... que venha a primavera

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Do dia mais frio


Encontrei na internet uma entrevista de Isabel Allende à BBC em 2018, que me impulsiona a escrever hoje. Justo o dia que queria esquecer, mas que sempre lembrarei.
Era dia frio e ensolarado como é o de hoje, e nesses dias tão iguais separados por 7 anos, lembro a mulher que eu era e reflito sobre a que sou agora.
Faces de uma mesma moeda, mas tão distantes como os anos que as separam. Ou talvez as duas sempre tenham existido simultaneamente, cada uma silenciosa esperando sua hora de protagonizar minha história.
Na entrevista Isabel relembra o que sua mãe lhe disse a respeito da perda de sua filha:
“Minha mãe me disse "nunca mais vai te acontecer algo comparável, você já passou pelo inferno, então o resto da sua vida será fácil"”.

Aquele dia me marcou para sempre, esta tatuado em minha alma, como o dia mais frio, como o dia do vazio. Foi dia de morte, mas só hoje percebo também foi dia de vida. São Desses que marcam como o nascimento de um filho.
Depois de passar pelos tortuosos dias carregados de culpas, saudades, carências e muita autopiedade, minha segunda eu nasceu.
Trago ainda a saudade, trago ainda o amor sublimado, mas já não me pesam, minha nova eu é bem mais leve. Mostra-me todos os dias que quase não tenho controle sobre os fatos de minha vida. Segundo Allende os eventos mais importantes de nossa vida acontecem apesar de nós mesmo, são decididos por destino ou karma, sem que possamos fazer nada. Ela conclui “Simplesmente vivi o que a vida me ofereceu”.
Ainda sofro pelas mazelas deste mundo pandêmico e distrófico. Mas há em mim uma vontade intima e maior que a cada manha me impulsiona a viver intensamente. Chorar os choros de lavar a alma, mas de rir os risos para enfeitá-la.
Então nesse dia frio, mas ensolarado eu apenas viverei o melhor que eu puder.


sexta-feira, 3 de julho de 2020

Uma distopia


É tempo de distopia!
Hoje é frio... é inverno ... já é julho e continuamos em isolamento...
Assim tem sido os dias. Estou com a sensação de que ainda é março...
Mas já o junho se foi... mês esquisito... meu aniversário e dias estranhamente quentes.
Isolada quase sempre com a Neta vendo o mundo pela internet.
Desse 2020 diremos coisas estranhas.
As relações estão distantes. Já não temos mais cafés para compartir... nem há festas para reunir....
Cada um vivendo vidas canceladas dentro de paredes protetoras.
Mas não há segurança, é tempo de distopia.
Sentimentos extremos de solidão, abandono e raiva.
Lembraremos desse ano como o da pandemia no mundo e em nosso interior.
Foi ano que iniciei cheia de expectativa, ávida para viver ao máximo, certa de que o tempo de renascer se havia terminado.
Renascida eu tinha pressa.
Então veio o vírus... foram-se os projetos... as viagens...
Estou sem contar os dias, danço um bolero com a vida transitiva... são dois pra lá... dois pra cá....
É tempo de distopia...

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Feliz 1984!


O abril passou num sopro. O isolamento social imposto pelo vírus e as lutas cotidianas por manter o emprego e a dignidade de nossas vidas não tem deixado espaço para contemplações. Vivo todo dia sem planejamento ou projetos.
A prioridade é sobreviver ao 2020.
Mas ando a sonhar, e no sonho em algum momento alguém me diz: Feliz 1984!
E penso que terei todos os anos para sonhar e lutar por minhas utopias.
Ainda me comunicarei por carta com meu amor e faremos projetos sobre o mundo que se descortinará ao longo de nossa vida.
Os grandes poetas estarão nos livros da minha estante, e nas paginas amareladas me perderei nas tardes mansas de outono, ao lado do berço de vime da filha.
Ainda terei algum tempo para me deliciar com as musicas novas de Gonsaguinha.
Os velhos boleros serão ainda trilha sonora dos enamorados levada para a maturidade do amor.
Ainda estarão por vir os anos das lutas perdidas, das alegrias genuínas nas vitorias, dos encontros espirituais e das algazarras alegres das crianças crescendo.
Mas então desperto no caótico 2020,  o amargo na boca me diz que tudo foi sonho.
E como o atormentado ator que colocou fim a própria vida por não suportar o mundo real, sinto que nada ficou para a geração de agora.
E porque Aldir Blanc se foi, levado por esse vírus e Elis nunca se vai, me vem os versos da canção:

“Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar”

sexta-feira, 27 de março de 2020

Da pandemia


Ainda trago comigo a certeza de nosso encontro um dia, quando então vou te falar do tempo de agora.
Um tempo que chegou tão de repente. Em um dia eu estava às voltas com os desassossegos da inquieta vida sozinha. Com os dengos da Neta. Com as alegres amizades de agora. No outro amanheci parada.
Não eu, mas o mundo.
Deste verão de 20 certamente falaremos do “coronavirus”. Que esta fechando aeroportos, isolando pessoas, e até mesmo pondo em quarentena países inteiros. Parece ser uma pandemia, mas que me trás à memória a epidemia de gripe que te levou em 2013.
No país estamos vivendo dias terríveis. Onde se debate se salvamos a vida ou a economia. Os antigos e cansativos embates entre esquerda e direita reverberam por todos os cantos. E este homem que assumiu a presidência parece estar estacionado nos anos 50 do século passado e com discursos rasos e ofensivos a toda sorte de pessoas pensa ser um enviado de Deus para exterminar comunistas. Deprimente e revoltante são palavras que me surgem para descrevê-lo. E seu ódio pode levar a morte centenas de pessoas. Sinto me completamente insegura quanto ao futuro.
Da Filha te posso dizer que seguimos orgulhosos de nosso trabalho feito na sua formação. É mulher forte, que ama o que faz e que acredita na importância de seu trabalho. É incansável, segue sempre estabelecendo novas metas. Então justifica e honra todas as lagrimas que derramaste por ela.
Mas meu coração de mãe se aperta. Ela vai ser soldado na frente da batalha contra essa doença. E eu que há muito não te pedia nada, peço que olhes por ela mais que nunca. Esteja com ela sempre, já que eu estarei isolada com a Neta.
Como tudo tem um lado positivo, esta vida cancelada me trouxe o convívio estreito com a Neta e a Mãe.  Ando as voltas com a rotina de cuidados que tem me trazido a memoria os nossos tempos criando a filha. A Neta torna estes tempos nebulosos mais leves. E a mãe em suas ladainhas me trás o consolo e a força para passar os dias.
Em nosso isolamento percebo estar segura por duas pontas. À Neta como promessa de futuro e à Mãe em sua fé inabalável de que nada nos ocorrerá.
E como Anne Frank encerrada em seu esconderijo, julgo estar segura aqui com elas.
Por agora é o que quero dizer desta vida suspensa.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Da alegria genuína


E passou o Carnaval...
Esses dias de festejar resgataram em mim a antiga Colombina. A alegria de ser leve para brincar as folias de momo, sem sentir a solidão e pesar das perdas... Foi libertador.
Os atuais desassossegos do coração não me trazem tristezas profundas, não me fazem paralisar a vontade de viver. Sinto que não preciso mais da mão de alguém a me puxar para a vida. Não busco fora o que esta dentro de mim.
A vida venceu as amarguras da morte.
E então que venham carnavais para serem propulsor da alegria genuína que esta em mim e que já não depende de nada nem de ninguém para existir.
E a Colombina sem Pierrô se sente alegre novamente.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Da maturidade e do amor

Resisto em dar nome ao que ando sentindo.
Não tenho como identificar o desassossego que me assola nos últimos dias.
Ando quieta, tentando aparentar normalidade.
Mas atropelou-me esse sentimento ainda indefinido. Que me tira a paz da mesma forma me faz sentir  intensamente viva como a muito não era.
Segundo Artur da Távola, o amor maduro não é menos intenso, apenas mais silencioso. Não carece de demonstrações e se baseia na verdade do sentimento. Não exige presença e aumenta com a ausência.
Não sei se concordo com o autor, mas ao que vejo o amor maduro sofre de complexidade extrema e não estou sabendo lidar com isso.
Ao que me causa desconforto agora, eu ainda não sei se posso chamar amor. Mas sei que é infinitamente melhor do quê o nada de antes.
E como pressentindo isso a meses, fiz os versos premonitórios sobre o amor maduro e suas inconstâncias.   


Ah! Mulher que pensas ter maturidade.
O amor é para ti ainda um jogo silente,
Recua com dignidade.
Protege-te deste terremoto estridente.
Ainda precisas aprender
que não há lugar para o embaraço.
É na dança sem delicadeza dos corpos
que reside a ternura da mulher exultante.

Ah! Menina insegura e tola.
Não te punas no choro,
pois não há culpa no ignorado.
Foge para longe da tua mocidade,
da segurança do amor juvenil idealizado.
Aprende enfim que as dores e perdas,
é que dão tempero ao amor maduro
Que mesmo quando conquistado,
nem sempre é seguro. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Dos dias passando


Passou o dezembro e suas festas.
Já o ano novo esta a pleno.
Das férias ficaram a leveza dos dias de sol na praia e a alegria das brincadeiras com a Neta.
Como um dia previ, somos ótimas companhias uma para a outra. Com ela esqueço o cansaço do trabalho e a solidão das madrugadas insones. E sei que ainda muito mais há por vir.
Do desassossego das aventuras românticas dos meses finais de 19, quase nada restou neste quente janeiro de 20.
Mas mantenho firme a decisão de continuar a florescer e me deixar encantar com a vida e suas surpresas, para quem sabe amar um outro amor.
E nesse tempo de agora penso nas palavras de Lia Luft:

"Viver é sentir a transformação do encanto esplêndido da juventude na potente força da maturidade, e depois na beleza peculiar da velhice."
O tempo é um rio que corre, Lya Luft