quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

DEZembro


DEZ motivos para amar DEZembro...
E só consigo pensar um...
Foi no DEZembro de 85...
Era noite...
Não havia silêncio...
Havia barulho de vida...
O ar era quente e parado...
Havia correria de emergências...
Havia a vida urgente nascendo em mim...
No instante mágico houve amor...
As almas se reconheceram no primeiro olhar...
E para sempre o DEZembro será especial.
E para sempre será... eu e ela...

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Tudo é o agora


Já as festas se anunciam...
Percebo com surpresa que o novembro de 19 esta se escoando.
Não vi seu passar, enredada em viver o instante de tudo.
Ando afastada da Filha e da Neta, imersa que estou em mim mesma.
Mas isso também já não me causa culpa.
Aprendi a duras penas que a vida é única e urgente. É preciso coragem e vive-la até seu ultimo cerne.
Para que então quando o futuro nos encontre, não nos cobre o vazio de não ter vivido.
Entendo agora que foi necessário eu não ser mais a de antes. A que eu era não saberia viver esse tempo de ser só instante e nada mais.
Não há projeto, não há planos, tudo é o agora.  
E assim vivo esse tempo de agora.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Dos desassossegos


Já o outubro tem passado num piscar de olhos.
O 2019 corre para o seu final.
Nesse tempo que é meu, ando em desassossego.
A vida tem tomado ares de aventuras e penso que ando em uma corda bamba que pode me levar ao chão, mas que também tem me feito viver dias intensos, de borboletas no estomago.
E ainda que eu não saiba nada do futuro e ele ainda me cause temor, vivo os dias presentes com a intensidade da juventude e intentando manter a prudência da maturidade.
São dias estranhos, e assim vou.
E as palavras do poeta português me fazem todo o sentido.

Esperança
Miguel Torga

Tantas formas revestes, e nenhuma
Me satisfaz!
Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito
Desesperado
Que apenas ouve o eco…
Peco
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio de um vinho herético e sagrado.
                                                                                                                                         

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Do amor transcendente


Em algum momento aconteceu a mudança.
Depois de anos convivendo com o sentimento de ausência, sou tomada de um vazio. Esperava que um amor devesse chegar para substituir o que partiu, mas não, ele se foi sem aviso, sutil e silenciosamente, deixando o oco no peito.
Amo ainda.
Amo o encontro e a viagem que fizemos juntos.  Amo o que restou nos traços da Filha, a família e as lembranças. Amo o que fui e o que fomos juntos. Amo aqueles dias de incondicional cumplicidade. Amo até as dificuldades que por vezes corroíam os anos de matrimônio.
Então... como num acordar de uma manhã de sábado, em que a calma da rua nos faz perceber o pássaro que canta no telhado, escutei o silêncio em meu peito.
Para onde foi o amor urgente? O desejo do toque? A busca pela presença concreta nas coisas? O cheiro que vez ou outra me enlaçava no abraço da solidão?
O amor de antes transcendeu as dores e a vida cotidiana de agora.
É nesse silêncio sem canto de pássaro que me encontro... sem nada.
Ficou o vazio que me leva por buscas equivocadas e inúteis.
Então nesse tempo que é só meu, me pego tendo esperança de novamente sentir as urgências do amor, esperando que esse vazio esmagador me deixe e que algo possa acontecer para novamente poder compartilhar a vida com alguém.

Ainda que eu saiba que o derradeiro pensamento será do amor transcendente e ele estará cheio de ternura e saudades.

domingo, 1 de setembro de 2019

Do poema e o poeta


Da pequena aventura flertando com o imaginário, restou o platônico idílio e o poema simples e sensível que retrata o instante e as impressões do poeta.
O que parecia ser tão fácil expressar pela tela do celular, apresentou se em nada natural diante da presença física.
Ainda que o sentimento quisesse, o corpo não respondia.
Desnuda-se a alma diante do desconhecido do outro lado do mundo. No encontro porém, luta-se para que a conversa pessoal não seja intima.
No tempo de antes, era na troca de olhar que nascia o encanto, o corpo percebia antes de conhecer o sentimento. Por ora protegidos no anonimato da internet o sentimento é carregado de tal expectativa que o olhar não sustenta.
Da experiência sobra o aprendizado de não alimentar possibilidades improváveis.
De toda forma fica o poema soberano... palavras regaladas por sobre a folha de papel em branco.



segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Da outra avó


E a outra avó morreu.
Ela não partiu num de repente. 
Ela se foi aos poucos, como uma vela consumida pela chama da doença.
Não sei se usou os seus últimos dias para se despedir dos seus.
Talvez pressentindo que o final se aproximava foi silenciando.
A alegria e a vaidade de que sempre se revestia foi deixando de lado.
E da pequena mulher de personalidade forte, ficou o ensinamento que devemos nos amar sempre primeiro, para depois amar aos que nos rodeiam. Esse sempre é amor de melhor qualidade e intensidade, pois é amor que transborda cheio de autoestima.
Como não sei entender os mistérios do sofrimento, vejo que a cada perda vou ficando mais forte.
Quero estar aqui o mais que puder, para falar para a Neta destes que lhe sorriem nos porta retratos.
De toda forma sigo minha viagem agora mais determinada que ela seja longa, saudável e alegre.
E sei será preciso levar comigo essas bagagens cheias de ausências e saudades.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Um poema meu


Ah! Mulher que pensas ter maturidade.
O amor é para ti ainda um jogo silente,
Recua com dignidade.
Protege-te deste terremoto estridente.
Ainda precisas aprender
que não há lugar para o embaraço.
É na dança sem delicadeza dos corpos
que reside a ternura da mulher exultante.

Ah! Menina insegura e tola.
Não te punas no choro,
pois não há culpa no ignorado.
Foge para longe da tua mocidade,
da segurança do amor juvenil idealizado.
Aprende enfim que as dores e perdas,
é que dão tempero ao amor maduro
Que mesmo quando conquistado,
nem sempre é seguro.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Das mulheres ainda


Ando por esses dias, acompanhada das leituras de Marina Colasanti.
Por ser mulher desse meu tempo de agora me identifico sobremaneira com seus escritos.
Em seu poema: ÀS SEIS DA TARDE, nos fala das mulheres “do lar”, que viviam a dicotomia de uma vida aparentemente perfeita e um vazio existencial.
Apesar do conforto oferecido pelos maridos e a saúde de seus filhos, nada lhes dava significação. E Marina nos declama:

Mas então ela compara esse desalento de antes, com as lutas das mulheres de agora.
O correr das horas atropelam as “mães-esposas-profissionais”, lhes conferindo um distanciamento de seus sonhos, e uma coragem que nem sempre são delas, na busca da sobrevivência.
E gora vivem a dicotomia da coragem cotidiana e a fragilidade de se reconhecerem sempre na busca de algo que lhes de identidade, para além dos rótulos que ancestralmente lhe são impostos.


E agora penso... na mãe ... em mim... na filha ... na neta... e tantas outras.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Das mulheres


Existe uma pressão que nos leva a buscar a eterna juventude.
Este fato atinge mais firmemente às mulheres da minha geração.
Sentem-se jovens e negam o quanto podem o passar dos anos.
São horas infinitas gastas nos procedimentos, tratamentos e sessões em clinicas de estética.
Padronizam seus rostos sem marcas, seus lábios de sorrisos sem naturalidade e suas sobrancelhas milimetricamente desenhadas.
Morreremos todas de peles alvas e lisas, de peeling e bisturi.
Nas conversas com as amigas este é tema recorrente. 
E eu que tenho em mim estes pensamentos de que sou outra pessoa renascida, fico a pensar.
O corpo que me molda não representa o espírito que me preenche.
Mas ainda assim reluto, tenho medo de perder minha identidade.
Então Marina Colasanti me representa tanto em seus versos, que mais não posso dizer:

ROTA DE COLISÃO

De quem é esta pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
dentro a polpa
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.

domingo, 4 de agosto de 2019

Da reflexão

No tempo de agora os dias são preenchidos pela vida que restou.
Pelos livros tatuados com minhas anotações.
Pelas vozes afinadas dos cantores românticos que me acompanham.
Pelas planilhas financeiras no trabalho. nas semanas que correm ligeiras para o fim do ano.
Pelos dengos da Neta, nos sábados alegres.
Pelos domingos quase sempre lentos.
Vez ou outra, encontro quem possa melhor traduzir estas presenças cheias de tanta ausência.


Reflexivo
O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeus-se.


segunda-feira, 29 de julho de 2019

Do tempo de agora


A dança, os novos projetos, novas viagens, os olhos que me seguem e a vida que atropela são os gatilhos para as alegrias de agora.
Sei que a vida é para ser colhida no hoje, e a expectativa do novo é o que me move.
Ainda guardo silêncios, mas vejo pelo espelho o brilho que havia perdido.
Neste tempo que agora é só meu, ando inquieta e cheia de planos.
Nada mudou e tudo esta mudado.
Reinvento a vida por mim, não por ninguém.
E em meio ao cotidiano das coisas comuns escrevo para me libertar.
E os segredos que guardo já não são só meus .... deixo que as palavras contem...

domingo, 14 de julho de 2019

De um dia cinza


Pela janela vejo o dia escoando.  
Chove uma chuva de névoa. 
A tarde se veste de cinza, 
avisando que não haverá por do sol.

A saudade dos domingos alegres, 
dos risos de antigamente,
e do sol de primavera me aperta.

Hoje espero os anos que haverão de me encher a vida, 
lutando com a ideia de que os dias serão sempre assim, 
silenciosos, lentos e cinzas.

Então rezo minha oração sem credos ou sacramentos. 
Pedindo que os dias sejam alegres, leves e coloridos, 
para pintar esta nublada paisagem de hoje.

Podia fazer poemas. Mas deles só me ocorre o lamento.
Então teço linhas de palavras na folha em branco.
E faço como sempre... me calo e aquieto.
Daqui a pouco será novo dia e estarei sorrindo como sempre.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Do eclipse


Observei o eclipse solar de 2019, pelo canto da janela de minha sala de escritório.
O sol do Rio Grande já estava se pondo. No céu algumas nuvens não impediram a lua de ofuscar uma parte do sol. Por alguns minutos pude ver através de uma lente escura o quase encontro dessas duas forças da natureza.
Daqui deste ponto do mundo pude ver a lua como uma pequena mordida em um sol já alaranjado pela tarde de inverno.
Segundo os pesquisadores teremos o mesmo fenômeno daqui a 50 anos. E é essa a reflexão de hoje.
Esse já não será mais meu tempo. Será o tempo da Neta e ainda da filha. Quem serão estas mulheres?
Por quais dores terão passado? Quais conquistas terão comemorado? Quais amores terão amado?
A Neta será ainda uma mulher cheia de força para lutar suas lutas. Penso que trará no expressivo rosto a mesma luz curiosa e inteligente que vejo agora, certamente achará encantamento no eclipse.
Já a filha, vestida de senhora, trará na beleza de seus olhos azuis a alegria e vivacidade de criança, contando aos netos e aos filhos destes, porque perdeu o eclipse de 19.  Dirá que nesse momento do irreal encontro dos astros, acalentava sua cria, tentando minimizar suas dores na sala de espera do médico.
Tentará com isso dizer aos seus amores, que são nos momentos comuns da vida que coisas extraordinárias ocorrem.
E penso...  Estarei de alguma forma impressa em suas memórias? Sorrirão ao lembrar-me? Que dirão de mim a estes que não me conheceram?
Essas são as coisas que sinto nesse tempo que ainda é meu e me fazem pensar nos tempos que virão. 

Imagem da internet

quinta-feira, 27 de junho de 2019

O quente inverno


Hoje o frio chegou ao inverno deste ano. Não sei se para ficar ou apenas para lembrar qual é a estação do calendário.
Tem sido um tempo estranho, de estações misturadas, contrariando os padrões da natureza.
Ainda que eu sinta falta da geada branqueando a grama ao amanhecer. Do aconchego que vem com o sol do meio dia, nos enlaçando como um abraço e do cair da tarde nos chamando para um chimarrão partilhado no encontro com os amigos, estou preferindo esta estação sem nome.
Este inverno sem excesso e contido de agora me traz coisa nova e uma leveza para a alma, um estar alegre sem razão aparente.
Talvez eu esteja como as flores, florescendo fora do tempo, enganada pelo quente inverno de 19.

Ou então, estou a “reflorescer” no tempo exato... o meu tempo...

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Das dores da vida


Abala-me por demais a lágrima no rosto da Filha. Ainda que eu entenda que chorar faz parte da vida. Que todos têm momentos de lavar a alma e transbordar angustias.
Mas nesse olhar, que amo tanto, não posso encontrar tristeza.
Aciona em mim um sinal de alerta, quero proteger. Sou tomada pela culpa e por todos os meios quero sanar seu coração.
Quero dar-lhe colo, contar minhas estratégias para lhe resolver os dissabores.
Quero falar-lhe que a vida é luta comezinha e interminável. É feita de dias de calmarias e dias de tempestades. Contar que é uma permanente dicotomia.
Mas agora que é adulta, apenas sento ao lado, aperto-lhe a mão e... espero.
Não me contará seus segredos de mulher enfrentando o cotidiano massacrante de quem quer ser mãe, esposa e profissional nesses tempos caóticos de agora.
Apenas chora e eu choro também por seu choro.

A vida é isso, incessantemente sofrer pelas dores dos filhos ... esquecendo as próprias dores.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Dançando


Reconstruir-se leva tempo.
Refazer-se é feito de muitos inícios. São muitas paradas, e alguns retornos.  Não é linear nem constante. Aceitar isso é o melhor que pode ocorrer.
Assim aprendi a me perdoar por não ser forte o tempo todo. Por dar passos para trás depois de ter vencido obstáculos e avançado léguas. Deu alívio às minhas cobranças. Me fez parar com comparações.
Muitos se recobram rápido e retomam suas vidas de maneira aparentemente fácil. Eu ficava me martirizando e dizendo a mim mesma: olha... aprende... deixa de tolices.
Mas não posso alterar minha alma intensa, foi preciso ter vivido todos estes momentos e fases.
Diante disso, dançar tem me feito dar passos adiante. Por tempos custei a me deixar levar pela melodia e me mover naturalmente ao som da musica.
Foi estranho, perdi minha naturalidade de dançar. Estou me forçando a retomar isto dentro de mim. Nunca fui exima bailarina, mas dançar sentindo o toque de outra pessoa sempre me foi muito agradável.
Dançamos para esquecer as dores, para nos distrair da vida e aliviar o espírito.

Li, não sei onde, que não dançamos para esquecer a vida, mas para lembrarmo-nos dela. 
Quero isso de volta

terça-feira, 28 de maio de 2019

De um vazio em mim


Há dias que fico suspensa de mim mesma.
Assola-me um vazio tão profundo ... um vácuo.
Então me distancio de mim, meus sentimentos não me alcançam, suspensos que estão pela falta de gravidade que me habita.
É nesse mundo nebuloso carregado de ausência que tenho vivido ultimamente.
Penso às vezes ser um estado temporário de loucura ... ou a maneira que encontrei de me defender de cair no abismo total da melancólica depressão.
Assim vou vivendo esse quente outono de 19, esmagada não mais pela tua ausência, mas pela minha própria.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Um café em Buenos Aires


Voltando de Buenos Aires escrevo para fixar na memória as coisas que vi e as sensações que senti.
As folhas amareladas das árvores anunciam o outono, ainda que o calor do verão permaneça presente nas tardes ensolaradas.
Os cheiros são intensos. Em cada esquina se encontra um café. Lugares cheios de história que exalam um aroma forte e indeterminado. Não sei se do café, se dos diversos chás ou da madeira dos móveis antigos. Alguns estendem suas mesas e cadeiras pelas calçadas com a firme intenção de cativar o transeunte a se deter para um "cortado" ou um "doble".
No interior o convite é para degustar o café acompanhado de uma "media luna". O quê me faz pensar na companhia de algum livro de paginas amareladas. Talvez poesias de Neruda ou os loucos textos de Garcia Marques.
A Avenida de Maio reina soberana nessa cidade de ruas largas. Nela mergulho no passado a cada passo. Seu encanto é indiscutível ao cruzar com a moderna 9 de Julio. São dois mundos que se enfrentam e se respeitam.
Na de Maio entro no Café Tortoni, lugar que me aprisiona. Me deixa suspensa, e para sempre me lembrarei do gosto amargo do café, da cor intensa da madeira avermelhada de seus móveis e dos espelhos e lustres, multiplicando a atmosfera de nostalgia.
Sentada à mesa fico a pensar no poema que me alerta na entrada para o que vou encontrar. E eu que não fumo, sinto ganas de tragar um cubano e de soprar a fumaça nesse momento irreal.
E desse meu tempo de viajar, essas são algumas das coisas que quero lembrar nos dias finais de minha vida.

…”La calle me llama
y a la calle iré...
Yo tengo una pena
de tan mal jaez

que ni tu ni nadie
puede comprender,
y en medio de la calle
¡me siento tan bien!

¿Qué cuál es mi pena?
¡Ni yo sé cuál es!
Pero ella me obliga
a irme, a correr...”

Baldomero Fernández Moreno
 


segunda-feira, 8 de abril de 2019

Tempo de reconstruir


Como um personagem de Gabriel Garcia Marques, ando reformando a casa obsessivamente.
Pouco ou quase nada resta da antiga morada. Eliminei muitos moveis, destruí papeis, me desfiz de objetos. Comprei coisas novas, pintei as paredes de outras cores.
Dessa forma dei em organizar e limpar todos os cantos da casa. Trato de criar um novo lugar para chamar de lar novamente.
Nesse tempo que é só meu, de solidão produtiva, as ausências já não causam desconforto.
Com sofreguidão ando a remexer gavetas de lembranças.
Mas estas se tornaram minhas amigas, não mais me machucam. Ao contrário, a cada foto ou cartão que encontro, sou tomada de uma tal alegria e contentamento pelas histórias de outros tempos que eu mesma me estranho.

E então faço colagens dos recortes da memória, tentando sintetizar o que tanto eu vivi com as silenciosas imagens.
 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Dos descompassos do coração


Ando intentando de ser forte. Por mim...  pela filha ... pela neta
O cardiologista com a frieza de um robô ratificou a sentença que trago desde o berço.
Um coração que insiste em trabalhar em descompasso e que me desafia o viver.
Já foi metade de coração, já foi coração parado, já foi coração partido...
Na infância, quando a grande maioria das crianças se quer sabem da existência de tal órgão, fui apresentada ao seu bater desconexo.
Lembro o Pai a falar que desde meu nascimento escutava a falha na marcação do compasso. Quase ele via o coração parando.
São tantas as histórias sobre os tratamentos. 
Lembranças borradas de hospitais de corredores escuros.
Idas à clinica misteriosa, de tratamento nada convencional, marcado pela lembrança do cabelo branco do médico, que eu as vezes alinhava com um pequeno pente, que ele tirava do bolso.
E mesmo com tantas restrições que eu não seguia e tirando as duas paradas em decorrência de um trabalho de parto extenuante, eu sobrevivi.
Mas hoje depois da consulta, percebo que se aproxima o tempo de enfrentar este descompassado coração, talvez seja esta a luta que me espera.

Então hoje é só mais um dia ruim...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A estratégia


Ao saber de alguém com depressão me coloco imediatamente no lugar... sou tomada de tamanha empatia que chego a ter taquicardia.
Lembro imediatamente de minhas dores, algumas passadas outras apenas escondidas. Lembro da luta que travei e travo para manter os pensamentos negativos longe de mim.
Lembro da estratégia de sempre ter um plano de viagem em curso, para não me deixar tomar pela melancolia de um cotidiano que me esmaga.
Tenho ganas de falar ao deprimido que esta estratégia me salvou.
Planejo viagens... melhor que ter planos de possuir coisas, de ter pessoas ao meu lado e de planejar um futuro incerto.
Ano passado Montevidéu... este ano Buenos Aires, ano que vem... Porto? Lisboa?
Não sei ainda, mais o plano é manter a estratégia sempre em curso...

Dessa forma como um Bonaparte, cheia de estratégias, vou tentando ganhar uma guerra insana contra neurotransmissores rebeldes.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Dos dias assim


Já o 19 corre... e os dias passam como um trem... me atropelando.
Do dezembro de 18 e das festas pouco há que se dizer. Também os dias de férias em janeiro transcorreram tranqüilos e alegres.
No Brasil o 19 será lembrado pela tragédia em Minas Gerais, são tantos os mortos que levaremos anos chorando esse luto coletivo.
Eu tenho estado quase sempre bem, me sinto preparada para recomeçar. E vez ou outra acho que isso vai acontecer, independente de minha vontade.
Mas há momentos em que a tristeza e a saudade me abraçam de forma tal que transbordo em choro de auto piedade. É nesses momentos que o cansaço e a solidão são uma presença concreta. Como um nevoeiro de inverno que me envolve e não lhes posso escapar. Então me aquieto e espero que passe por si só.
Assim sigo, depois de lavar a alma no choro reprimido de meses, para mais um período de alegre calmaria. Volto a ser a personagem inventada, dizendo textos que agradam à platéia. Dessa forma a atriz por traz da personagem fica totalmente esquecida, até dela mesma.

Dessa forma enfrento o 19 e todos os anos que estão por vir.