quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

de um final de ano

 

Gosto de começar uma agenda nova para o ano que vem chegando. Faço isso somente no trabalho, numa rotina anual de vários anos.

Olho com esperança para todas aquelas páginas que sei serão preenchidas com compromissos de trabalho, anotações de pagamentos a serem feitos, informações sobre os dias que se seguirão. Sei que chegarei ao final do ano quando então esta dará lugar a próxima.

Assim ando, por estes tempos, com uma esperança rotineira, feita mais de costume do que de convicção. Me acostumei a pensar que há um futuro, por isso sigo, mesmo sem saber para onde. Ainda trago (e acho não perderei mais) esse estranhamento de nunca mais pertencer, de ser ou ter. 

Começo esse 22 como um tempo de planejar viagens, cursos, passeios e tudo isso enfeitado pela presença alegre e inteligente da Neta.

Ela sim faz tudo valer e justifica toda esperança.

Feliz esperança ao 2022!

PS: ainda é pandêmia.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Novo ciclo

 

A Sogra renascida de uma vida triste e sem brilho, sufocada pelo coração doente que um dia escolheu para amar, agora respira tranquilidade e sabedoria. Olha o tempo perdido em viver uma vida de medo e maus tratos, sem arrependimentos. O destino lhe reservou o final da vida para finalmente ser ela mesma.

O paradoxo está em transformar um fato trágico nos motivos da superação. O Sogro partiu, atormentado como viveu. Foi sem deixar quem sentisse sua ausência. E ela que já chorou a perda do filho por anos, encontra agora motivos para sorrir, fazer planos, ter novos propósitos e resinificar sonhos.

Muitos desafios surgirão, mas ela se sente preparada para dançar essa música nova, ainda que a idade lhe diga que não há mais tempo para novos bailes. O corpo franzino, os cabelos orvalhados de branco e os olhos cada vez mais azuis reverberam esperanças juvenis de alegres passeios e brincadeiras infantis com sua bisneta. Como que vivendo em um surto eufórico se agita em reformas e projetos.

Nesse tempo que agora é dela, oro não por tempo de vida, mas por qualidade. Que ao lhe alcançar o último suspiro, encontre em seu rosto um sorriso. Cheio de perdão por si mesma e pelos que a rodeiam. Que a paz seja sua companheira, para que os anos que estão por vir sejam de eterna primavera.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

De engano e ilusão

Me fala essa letra do Legião Urbana:

            “Todos os dias quando acordo
              Não tenho mais
              O tempo que passou
               Mas tenho muito tempo
             Temos todo o tempo do mundo”

O poeta brinca com o imponderável sentido do tempo.

Letra feita por jovens e para jovens que olham para o futuro como se ele fosse um eterno caminhar. A maturidade e a vida me dizem que o tempo é finito e meu futuro é agora. O amargo que sinto é que em não tendo o tempo que passou, também não tenho todo tempo do mundo. E aí o sentimento de urgência me assola.

Nessa pressa por alcançar algum futuro, me perco em melancólicos enganos. Enfileirados começos e recomeços, inicios e finais. Sem saber o que procurar qualquer achado me ilusiona os sentidos. São enredos tão iguais para a mesma protagonista, que vez ou outra penso que os personagens são os mesmos nessa novela sem fim. Historias repetidas que nada me oferecem, além do tempo perdido.

São curativos para feridas emocionais e remédios placebos para falsas recuperações, mas de analgésicas ilusões.                                             

E assim sigo nesse tempo estranho e ainda pandêmico.


quinta-feira, 8 de julho de 2021

Que eu me proteja de mim

 

E corre o tempo. 2021 escoa por entre os dias.

O inverno chegou mais rigoroso esse ano. Isso e a rotina de sobreviver aos dias pandêmicos me anestesia os sentidos.  Nem as desastradas aventuras românticas têm me inspirado para a escrita.

A folha em branco diante de mim é como um poço seco, sedimentado em eterno silêncio. Desenvolvi a fobia de mergulhar nos meus mistérios. Sigo navegando rasa no mar de sentimentos imprecisos.

Por vezes, intento iniciar um diálogo comigo mesma, acordar o que está adormecido. Teço conversas internas superficiais e faço afagos no ego, banhados a vinho tinto e músicas dançantes.

Ando escondida de mim. E em mim uma música fala:

“Caminho se conhece andando
Então vez em quando é bom se perder
Perdido fica perguntando
Vai só procurando
E acha sem saber

CHICO CESAR / DOMINGUINHOS


quinta-feira, 22 de abril de 2021

Do Abril/21

 

Sigo em viagem, mas não sei se haverá lugar onde desembarcar.

Um lugar meu, onde eu esteja finalmente em casa.

Nunca mais o abraço de ninho?

Será sempre uma eterna migração de pássaro?

Me esforço para nesse trajeto da viagem, seguir passageira sorridente.

Nesse abril de 21 a viagem é solitária e cansativa.

E os que vez ou outra estão comigo, embarcam em alvoroço.

Se deixam ficar por um tempo e partem sem deixar nem o perfume de suas presenças.


OBS: ainda são tempos pandêmicos. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Do amor à âncora

Estou me percebendo numa encruzilhada.

O tempo de agora tem a tendência a me levar ao vazio de quereres.

Rasguei e descartei os escritos de meses, achando que me livraria dessa sensação do sentir imponderável. Essa vida sem o peso da âncora tem me atordoado.

Já não posso creditar esse vazio ao amor que partiu e foi sublimado. Então concluo que sejam as relações liquidas desse tempo dicotômico.

Se por um lado podemos conhecer e ter acesso a tantas pessoas, por outro vivemos isolados e restritos a tela de um celular. As relações são superficiais, não geram comprometimento, são amores efêmeros. Apegos líquidos que só tem algum valor enquanto estão gerando a realização de um desejo, que geralmente é passageiro e não evoluem para além da paixão inicial do enamoramento.

O amor comprometido virou sinônimo de falta de liberdade. Como se o estar com o outro nos fizesse perder algo mais emocionante e melhor. Dessa forma são amores sem vínculos, sem âncora... é um estar a deriva.

Quero me arriscar para além da das conversas tecladas e os primeiros encontros. Sei bem que compartilhar a rotina e a vida pode ser uma luta constante por fazer dar certo. Mas, contudo percebo que as pessoas não estão dispostas para esse combate. Abandonam a luta ao primeiro sinal de sentimento real.

É mais seguro excluir, deletar, bloquear e partir para novo “amor virtual”, de encontros que satisfaçam nossas reações químicas, mas que não sejam amarras.

É um amor desamado. São amores “inventados”, mas não exagerado como o de Cazuza. É um amor que não prescinde de nada e que pede tudo.

Por vezes me toma o cansaço e sou corroída por essa dicotomia. Me aprisiono no apego ao amor próprio e à liberdade, que a maturidade me proporcionou. Então para não criar expectativa e querer reciprocidade incondicional sem abrir mão de nada me afasto e sou afastada.

E é assim esse tempo.

E em minha cabeça ecoa a voz de Cazuza cantando seus versos:

 

“Adoro um amor inventado

E por você eu largo tudo
Carreira, dinheiro, canudo
Até nas coisas mais banais
Pra mim é tudo ou nunca mais

Exagerado”


domingo, 7 de fevereiro de 2021

Mais um poema meu

Na minha inocente maturidade 

Não havia tempo a perder 

Ardi cedo demais. 

Sem as dúvidas do querer 

Dizer a palavra amar

Foi meu erro.

Teu coração assustado 

Não estava preparado 

Diante de tanto ardor.

Num mar de angústias

Mergulhei sem pudor.

Não sei como foi

Mas foi assim que terminou.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

De mais perdas

Fiquei perdida nesses meses. Eu e meus estranhos sentimentos.

Essa mania de mergulhar nos precipícios das coisas e pessoas.

Tentei por algum tempo fazer um curso que me ensinasse como colocar essa ânsia em palavras, para que ela se afastasse de mim. Para me libertar... foi em vão. Quanto mais eu expurgava o que me prendia, tanto mais eu me calava.

E aqui estou eu terminando mais uma historia, bendizendo os momentos felizes e maldizendo o destino de sempre perder.

Ainda que eu tenha agora mais estofo para amenizar o peso das dores da perda, elas me angustiam sobremaneira. Tentando destravar a alma para mais uma vez recomeçar, me esgoto em sofrimento, insônia e desalento...

E nesse meu tempo, não consigo expressar o tanto que fui atropelada pela vida instigante e perigosa desses dias pandêmicos e para qual não tive preparo algum, então leio: 

“Era como estar mergulhada num mar de acontecimentos, pessoas, vidas. Como se a própria água que eu bebesse me contasse coisas enquanto descia em mim ...” LETICIA WIERZCHOWSKI - SAL