Estou me percebendo numa encruzilhada.
O tempo de agora tem a tendência a me levar ao vazio de quereres.
Rasguei e descartei os escritos de meses, achando que me livraria dessa sensação do sentir imponderável. Essa vida sem o peso da âncora tem me atordoado.
Já não posso creditar esse vazio ao amor que partiu e foi sublimado. Então concluo que sejam as relações liquidas desse tempo dicotômico.
Se por um lado podemos conhecer e ter acesso a tantas pessoas, por outro vivemos isolados e restritos a tela de um celular. As relações são superficiais, não geram comprometimento, são amores efêmeros. Apegos líquidos que só tem algum valor enquanto estão gerando a realização de um desejo, que geralmente é passageiro e não evoluem para além da paixão inicial do enamoramento.
O amor comprometido virou sinônimo de falta de liberdade. Como se o estar com o outro nos fizesse perder algo mais emocionante e melhor. Dessa forma são amores sem vínculos, sem âncora... é um estar a deriva.
Quero me arriscar para além da das conversas tecladas e os primeiros encontros. Sei bem que compartilhar a rotina e a vida pode ser uma luta constante por fazer dar certo. Mas, contudo percebo que as pessoas não estão dispostas para esse combate. Abandonam a luta ao primeiro sinal de sentimento real.
É mais seguro excluir, deletar, bloquear e partir para novo “amor virtual”, de encontros que satisfaçam nossas reações químicas, mas que não sejam amarras.
É um amor desamado. São amores “inventados”, mas não exagerado como o de Cazuza. É um amor que não prescinde de nada e que pede tudo.
Por vezes me toma o cansaço e sou corroída por essa dicotomia. Me aprisiono no apego ao amor próprio e à liberdade, que a maturidade me proporcionou. Então para não criar expectativa e querer reciprocidade incondicional sem abrir mão de nada me afasto e sou afastada.
E é assim esse tempo.
E em minha cabeça ecoa a voz de Cazuza cantando seus versos:
“Adoro um amor inventado
E por você eu largo tudo
Carreira, dinheiro, canudo
Até nas coisas mais banais
Pra mim é tudo ou nunca mais
Exagerado”