quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Do amor à âncora

Estou me percebendo numa encruzilhada.

O tempo de agora tem a tendência a me levar ao vazio de quereres.

Rasguei e descartei os escritos de meses, achando que me livraria dessa sensação do sentir imponderável. Essa vida sem o peso da âncora tem me atordoado.

Já não posso creditar esse vazio ao amor que partiu e foi sublimado. Então concluo que sejam as relações liquidas desse tempo dicotômico.

Se por um lado podemos conhecer e ter acesso a tantas pessoas, por outro vivemos isolados e restritos a tela de um celular. As relações são superficiais, não geram comprometimento, são amores efêmeros. Apegos líquidos que só tem algum valor enquanto estão gerando a realização de um desejo, que geralmente é passageiro e não evoluem para além da paixão inicial do enamoramento.

O amor comprometido virou sinônimo de falta de liberdade. Como se o estar com o outro nos fizesse perder algo mais emocionante e melhor. Dessa forma são amores sem vínculos, sem âncora... é um estar a deriva.

Quero me arriscar para além da das conversas tecladas e os primeiros encontros. Sei bem que compartilhar a rotina e a vida pode ser uma luta constante por fazer dar certo. Mas, contudo percebo que as pessoas não estão dispostas para esse combate. Abandonam a luta ao primeiro sinal de sentimento real.

É mais seguro excluir, deletar, bloquear e partir para novo “amor virtual”, de encontros que satisfaçam nossas reações químicas, mas que não sejam amarras.

É um amor desamado. São amores “inventados”, mas não exagerado como o de Cazuza. É um amor que não prescinde de nada e que pede tudo.

Por vezes me toma o cansaço e sou corroída por essa dicotomia. Me aprisiono no apego ao amor próprio e à liberdade, que a maturidade me proporcionou. Então para não criar expectativa e querer reciprocidade incondicional sem abrir mão de nada me afasto e sou afastada.

E é assim esse tempo.

E em minha cabeça ecoa a voz de Cazuza cantando seus versos:

 

“Adoro um amor inventado

E por você eu largo tudo
Carreira, dinheiro, canudo
Até nas coisas mais banais
Pra mim é tudo ou nunca mais

Exagerado”


domingo, 7 de fevereiro de 2021

Mais um poema meu

Na minha inocente maturidade 

Não havia tempo a perder 

Ardi cedo demais. 

Sem as dúvidas do querer 

Dizer a palavra amar

Foi meu erro.

Teu coração assustado 

Não estava preparado 

Diante de tanto ardor.

Num mar de angústias

Mergulhei sem pudor.

Não sei como foi

Mas foi assim que terminou.