segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Da mãe e seus bonecos



A Mãe deu para tecer bonecos de crochê enquanto reza intermináveis terços marianos.
Esta mais calada.
Sinto que olha ao seu redor e como enxerga cada vez menos, só o que vê é o pequeno mundo de sua casa envelhecer como ela e ruir aos poucos sem o Pai para lhe fazer a devida manutenção.
E ela que nunca foi dada às agulhas e linhas, começou a tecer, primeiro intermináveis tapetes de linhas coloridas.
Depois demonstrando a esperteza e inteligência que sempre foi subestimada, se iniciou nos misteriosos caminhos da internet e ao 80 anos aprendeu o mínimo para lidar com as novas tecnologias.
Avidamente vasculha o mundo virtual atrás de receitas de crochê; primeiro foram os polvos, depois cachorros e por fim animais e personagens esquisitos, que ela tece e coloco o que chama seu toque. São olhos esbugalhados, bocas torcidas e orelhas esquisitas.
A volta de sua cama os novelos de linhas se entrincheiram desordenados, aguardando que essa senhora de olhos pequenos e apertados venha lhes dar vida ao som monótono da ladainha das “Aves Marias”.
Assim transformados em criaturas esquisitas ela os vende e ela os dá...
Espero que quando for sua hora de partir deixe vários deste seres espalhados por ai para que então a Neta diga: foi a Bisa que fez!
Dessa forma preenche o escuro dos seus dias com o colorido desses personagens quase mitológicos.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Só pensando na vida



Ando por esses dias a pensar na finitude de todos nós.
Desde que partiste muitos dos queridos que estavam na foto de natal, também já se foram.
Foram se as tias, uma levou consigo o segredo de muitas receitas e outra o segredo de como ter um olhar tão doce, de ser tão delicada e tão forte ao mesmo tempo.
O tio também partiu, dizem os médicos que de doença, mas todos sabem que foi saudades do doce olhar, daquela que foi sua fortaleza e seu dengo de uma vida toda.
Partiram também amigos, tantos que nem sei numerar agora. Foram se artistas e pessoas ditas ilustres, que por sua história de vida talvez não morram nunca.
Mas porque penso nisso agora?
É que a Avó (não eu) da Neta enfrenta sua batalha por não partir.
Mas a ela foi dada a chance de dizer alguns adeuses. Não se irá num repente. Terá chance de dizer de seu amor aos que ama, de perdoar e ser perdoada. E certamente valorizará estes momentos.
Mas a Neta tão pequena ainda não sabe de nada dessa vida que passa tão rápido.
No futuro preciso lembrar-me de falar a ela, destes que lhe sorrirão nos retratos, nos vídeos e em todos estes novos modos de eternizar as pessoas.
Mas é claro que tudo isso me faz pensar em minha própria finitude e me causa uma urgência por viver.
Quero muito viver esse futuro que tanto me assusta, que por vezes me parece tão vazio sem a tua presença mas que ainda assim esta repleto de sonhos por realizar.


Como diz Belchior (que também já partiu) “ viver é melhor que sonhar”.