quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Sal


Ando por ai com as palavras trancadas em mim, gritam em minha cabeça mas não saem. Não sei se por medo de enfrentar julgamentos ou por não haver ninguém mais a quem dizer.
Então encontrei um texto incrível da escritora Letícia Wierzchowski, do livro Sal. Senti como se tudo que estava dentro de mim saísse, ora aliviando o peito ora apertando, pena que não haverá com quem comentar. Então as palavras seguirão lá dentro de mim.
         “Uma mulher pode amar um único homem durante a vida inteira, amá-lo do começo ao fim dos seus dias e, no entanto, perdê-lo na esteira dos anos; perder-se dele, lenta e silenciosamente como a areia escoa num daqueles relógios antigos. Homem e mulher na mesma casa, anos a fio, entre fraldas e mamadeiras, risos e choros, tombos e arrependimentos, noites de tormenta, naufrágios, sopa quente em tigelas de porcelana, achas de lenha ardendo no fogão, o pó acumulando-se traiçoeiramente entre os livros na estante, o vento lá fora… Bem, essas são as armadilhas de um casamento. Na maioria das vezes, não há sangue, nem gritos, nem feridas. Apenas o tempo gotejando como uma velha torneira com o reparo gasto, e um dia você está assim de água até o pescoço.”
       “.... Eu, às vezes, quase nem sabia mais amá-lo. Mas não há nada como a morte para nos chamar à razão — quando Ivan se foi repentinamente naquela manhã lá no píer, um vazio se abriu dentro de mim. Como se alguma coisa me comesse por dentro, de repente me vi roída, rota, vazia. O amor sabe ser silencioso, ora se sabe.”
 
Lembrei os últimos anos de meu casamento, foi feito de muitos abraços silenciosos, parecia não haver mais nada a dizer.
            "Claro, houve um tempo em que eu ardia por Ivan. Éramos jovens e sempre parecia verão, porque não ficou em minha memória nada que não as nossas tardes sob o sol, os beijos entre as pedras do molhe, noites apinhadas de estrelas…”
Então lembrei de nosso inicio, tantos risos, tantos planos.... tanto a viver...
O texto segue ainda falando de como os personagens mudaram ao longo dos anos, de como o marido foi ficando diferente, cada vez mais se parecendo com o sogro, de como o tempo foi apagando o brilho de seu olhar. É claro também a esposa mudou, também ela foi desbotando e com eles também o amor, então ela conclui sobre o marido e sobre ela:
         “.... Como era Ivan realmente? Ah, ele era lindo, inóspito e dourado como um verão aqui na costa. Ele deixava um rastro de verde em todas as coisas, era como uma gema preciosa, uma planta, um poço muito fundo — tinha um silêncio cheio de segredos. Eu pulei naquele poço e fui até o fundo das coisas, até o âmago. Às vezes, podia ser extenuante, mas valia a pena. Agora que Ivan se foi, nada mais será como antes. Até a casa vem perdendo o viço, enquanto eu fico aqui na sala tecendo o meu interminável tapete de lembranças.”
 Então...
 


“Mas a vida é assim, ela joga conosco. Casamos com o homem x ou a moça y mas, na verdade, o nosso matrimônio verdadeiro, o único do qual não nos podemos apartar de maneira nenhuma, é com o tempo.”
Letícia Wierzchowsk


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