quarta-feira, 6 de maio de 2020

Feliz 1984!


O abril passou num sopro. O isolamento social imposto pelo vírus e as lutas cotidianas por manter o emprego e a dignidade de nossas vidas não tem deixado espaço para contemplações. Vivo todo dia sem planejamento ou projetos.
A prioridade é sobreviver ao 2020.
Mas ando a sonhar, e no sonho em algum momento alguém me diz: Feliz 1984!
E penso que terei todos os anos para sonhar e lutar por minhas utopias.
Ainda me comunicarei por carta com meu amor e faremos projetos sobre o mundo que se descortinará ao longo de nossa vida.
Os grandes poetas estarão nos livros da minha estante, e nas paginas amareladas me perderei nas tardes mansas de outono, ao lado do berço de vime da filha.
Ainda terei algum tempo para me deliciar com as musicas novas de Gonsaguinha.
Os velhos boleros serão ainda trilha sonora dos enamorados levada para a maturidade do amor.
Ainda estarão por vir os anos das lutas perdidas, das alegrias genuínas nas vitorias, dos encontros espirituais e das algazarras alegres das crianças crescendo.
Mas então desperto no caótico 2020,  o amargo na boca me diz que tudo foi sonho.
E como o atormentado ator que colocou fim a própria vida por não suportar o mundo real, sinto que nada ficou para a geração de agora.
E porque Aldir Blanc se foi, levado por esse vírus e Elis nunca se vai, me vem os versos da canção:

“Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar”

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