sexta-feira, 10 de julho de 2020

Do dia mais frio


Encontrei na internet uma entrevista de Isabel Allende à BBC em 2018, que me impulsiona a escrever hoje. Justo o dia que queria esquecer, mas que sempre lembrarei.
Era dia frio e ensolarado como é o de hoje, e nesses dias tão iguais separados por 7 anos, lembro a mulher que eu era e reflito sobre a que sou agora.
Faces de uma mesma moeda, mas tão distantes como os anos que as separam. Ou talvez as duas sempre tenham existido simultaneamente, cada uma silenciosa esperando sua hora de protagonizar minha história.
Na entrevista Isabel relembra o que sua mãe lhe disse a respeito da perda de sua filha:
“Minha mãe me disse "nunca mais vai te acontecer algo comparável, você já passou pelo inferno, então o resto da sua vida será fácil"”.

Aquele dia me marcou para sempre, esta tatuado em minha alma, como o dia mais frio, como o dia do vazio. Foi dia de morte, mas só hoje percebo também foi dia de vida. São Desses que marcam como o nascimento de um filho.
Depois de passar pelos tortuosos dias carregados de culpas, saudades, carências e muita autopiedade, minha segunda eu nasceu.
Trago ainda a saudade, trago ainda o amor sublimado, mas já não me pesam, minha nova eu é bem mais leve. Mostra-me todos os dias que quase não tenho controle sobre os fatos de minha vida. Segundo Allende os eventos mais importantes de nossa vida acontecem apesar de nós mesmo, são decididos por destino ou karma, sem que possamos fazer nada. Ela conclui “Simplesmente vivi o que a vida me ofereceu”.
Ainda sofro pelas mazelas deste mundo pandêmico e distrófico. Mas há em mim uma vontade intima e maior que a cada manha me impulsiona a viver intensamente. Chorar os choros de lavar a alma, mas de rir os risos para enfeitá-la.
Então nesse dia frio, mas ensolarado eu apenas viverei o melhor que eu puder.


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