sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Do amor transcendente


Em algum momento aconteceu a mudança.
Depois de anos convivendo com o sentimento de ausência, sou tomada de um vazio. Esperava que um amor devesse chegar para substituir o que partiu, mas não, ele se foi sem aviso, sutil e silenciosamente, deixando o oco no peito.
Amo ainda.
Amo o encontro e a viagem que fizemos juntos.  Amo o que restou nos traços da Filha, a família e as lembranças. Amo o que fui e o que fomos juntos. Amo aqueles dias de incondicional cumplicidade. Amo até as dificuldades que por vezes corroíam os anos de matrimônio.
Então... como num acordar de uma manhã de sábado, em que a calma da rua nos faz perceber o pássaro que canta no telhado, escutei o silêncio em meu peito.
Para onde foi o amor urgente? O desejo do toque? A busca pela presença concreta nas coisas? O cheiro que vez ou outra me enlaçava no abraço da solidão?
O amor de antes transcendeu as dores e a vida cotidiana de agora.
É nesse silêncio sem canto de pássaro que me encontro... sem nada.
Ficou o vazio que me leva por buscas equivocadas e inúteis.
Então nesse tempo que é só meu, me pego tendo esperança de novamente sentir as urgências do amor, esperando que esse vazio esmagador me deixe e que algo possa acontecer para novamente poder compartilhar a vida com alguém.

Ainda que eu saiba que o derradeiro pensamento será do amor transcendente e ele estará cheio de ternura e saudades.

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